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Fábrica impulsiona arrecadação de cidade mineira
Atualizado em 07/02/10 - 22h52

Jeceaba viu sua arrecadação saltar de R$ 50 mil mensais para R$ 1,5 milhão com a nova fábrica da VSB. Mas, como não tem projetos, prefeitura não pode gastar o dinheiro
TAMANHO DO TEXTO 

 

 A gigantesca e moderna fábrica de tubos de aço sem costuradestinados ao setor de petróleo, da Vallourec&Sumitomo Tubos do Brasil (VSB), começa a ganhar forma e inchar de dinheiro os cofres municipais - (Renato Weil/EM/D. A Press)  
A gigantesca e moderna fábrica de tubos de aço sem 
costuradestinados ao setor de petróleo, da Vallourec&Sumitomo
 

 

Dinheiro sobrando no caixa e os pagamentos semanais de fornecedores e prestadores de serviços rigorosamente em dia transformaram a Prefeitura de Jeceaba, pequena cidade de tradição agrícola da Região Central de Minas Gerais, num caso raro de bonança nas administrações municipais, que voltaram a gritar para expor as contas no vermelho. O pulo surpreendente da arrecadação do Imposto sobre Serviços (ISS), de R$ 50 mil por mês em meados do ano passado para quase R$ 1,5 milhão mensais, ou seja, cerca de 30 vezes mais, é um dos reflexos mais imediatos da injeção de recursos no município de apenas 6 mil habitantes escolhido para abrigar a fábrica mais moderna do mundo de tubos de aço sem costura para o setor de petróleo e gás.

A estrutura gigantesca da Vallourec&Sumitomo Tubos do Brasil (VSB), joint venture formada pelas multinacionais da siderurgia Vallourec e Sumitomo sai do chão rapidamente e deve alcançar o pico das obras no começo de abril. Só há um problema: a cidade não pode gastar o dinheiro, já que o salto da arrecadação foi mais rápido que a velocidade dos administradores em preparar projetos e licitações. É uma cidade rica com o cofre trancado.

São 7 mil pessoas trabalhando no projeto, que deu impulso a investimentos na construção civil e no comércio local. A região vive mudanças, num misto de apostas na prosperidade econômica e de preocupação com o jeito de viver das cidades grandes que mostra a sua cara não só em Jeceaba, como também nas vizinhas São Brás do Suaçuí e Entre Rios de Minas. Com uma receita tão polpuda, que atropelou a capacidade do governo municipal de definir e executar projetos de interesse da população, atendendo a lei de licitações, só agora o prefeito de Jeceaba, Júlio César Reis, traçou os planos para um novo centro administrativo, equipado com escola, centros de saúde e lazer. A receita total cresceu 150% ao mês nos últimos seis meses.

A negociação de um terreno de 160 mil metros quadrados, futuro endereço do centro administrativo – algo difícil de imaginar ante os cômodos modestos de uma pequena casa de dois andares em que a prefeitura se ajeita no centro da cidade – faz inveja diante da peleja dos pequenos municípios. “Pagamos R$ 1,45 milhão à vista. Antes da siderúrgica, o terreno foi oferecido à prefeitura por R$ 230 mil e não pudemos comprar”, conta Júlio Reis.

Na Praça Tancredo Neves, já reformada, o tempo das conversas não é mais tão longo. O trânsito de caminhões e ônibus virou rotina pela manhã e à tarde, um cenário animador para a nova loja de cosméticos aberta por Márcia Gonçalves Rocha, que trocou um antigo sacolão pela promessa de mais lucro. “A cidade cresceu muito e as vendas refletem esse crescimento todo mês”, afirma. Nas prateleiras, o consumidor encontra produtos que tinha de buscar em municípios maiores da região e até tintas importadas. Concorrência no varejo também parece ser algo novo em Jeceaba. Cláudia Helena dos Reis, que estava desempregada há um ano e meio, foi contratada como vendedora na mais recente filial da rede Iza Móveis e Eletro, de Congonhas. A empresa chegou com planos de pagamento em 10 meses.

São Brás

“A cidade melhorou e as pessoas estão procurando estudar para ter mais opção de emprego”, conta Cláudia Helena, que escolheu o curso de logística oferecido a distância por uma universidade de São Brás do Suaçuí. Com seus 3,4 mil habitantes, São Brás é a opção mais próxima para o almoço de uma população flutuante que ninguém se arrisca a calcular neste momento. Aberto há dois anos na cidade, o Restaurante e Pizzaria Brasão passou a concentrar 90% do seu faturamento nas 600 refeições servidas todo dia aos empregados das 28 empreiteiras e prestadoras de serviços à VSB. Boa parte delas já informou à administradora da casa, Andréa Cristina Coutinho, que vai trabalhar na região por mais 10 anos. “Quem quer ganhar dinheiro aqui tem de se estabelecer agora”, afirma.

O sentimento não parece ser diferente em Entre Rios de Minas, onde o negócio da hora é o aluguel de casas ou parte delas para abrigar brasileiros e estrangeiros envolvidos na construção da siderúrgica. O trânsito intenso do fim da tarde nem parece pertencer àquela tranquila cidade às margens da rodovia que liga a BR-040, na altura de Congonhas, a São João del-Rei, observa Magno Gonçalves Coelho, secretário de Planejamento e Finanças do município. “Nossa rua principal de comércio já faz lembrar a 25 de Março (rua mais movimentada do comércio popular de São Paulo)”, afirma.

Quem imaginaria a falta de mão de obra na região, por exemplo, na construção civil? Preocupado, o prefeito de Conselheiro Lafaiete, José Milton de Carvalho Rocha, entregou no fim de janeiro ao governo estadual um relatório contendo um pacote de projetos de infraestrutura viária, de saúde e saneamento para que a região possa crescer. Lafaiete, com 130 mil habitantes, é polo regional de serviços de educação e saúde na área de influência direta da VSB, mas não quer ficar só com o ônus do crescimento prometido no entorno da empresa. 

UAI

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